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VIII – NOUGATINE – ou a história de um resgate diferente

“À “Nougatine d’Or” – uma égua puro-sangue vítima de maus-tratos, depois resgatada, e um modelo de perdão…” – parte da dedicatória de “LIGAÇÕES INDISSOLÚVEIS”

Há dias, a notícia horrível de um cavalo que, alegadamente em grande sofrimento, fora recolhido e era mantido, sem qualquer assistência, no canil municipal de Évora – caso esse que causou uma onda imensa de indignação a nível nacional, mas do qual, posteriormente, nunca mais ouvimos falar, e cujo desfecho, por isso, desconhecemos – recordou-nos uma história… de um resgate, podemos dizer, de dimensões épicas. Tratou-se do do resgate, também, de um cavalo – ou antes, de uma égua. E, como sabemos que os nossos leitores gostam, tanto como nós, de um belo final feliz, seja qual for a espécie do animal protagonista, pensamos em partilhar mais esta história – que, como verão, começou tão dramaticamente como a do infeliz cavalo da notícia, mas acabou… tão maravilhosamente bem como, do fundo do coração, gostaríamos que a dele tivesse terminado. Aqui fica, pois, a nossa história de um resgate… diferente:

Decorria o ano de 1996, e, na Quinta da Lage, a azáfama era, naquele dia, tão grande como nos outros dias. Afinal, quando há cavalos, éguas, poldros de várias idades, e até burrinhos para cuidar, com tudo o que tais cuidados implicam, todos os dias – e, por vezes, as noites – são repletos de tarefas que não podemos, de forma alguma, negligenciar. Isto, é claro, quando somos responsáveis, e o bem-estar dos animais que acolhemos está, por conseguinte, em primeiro lugar.

Porém, essa responsabilidade, que, conforme dizia Antoine de Saint-Exupéry, adquirimos relativamente a todos os seres que domesticamos, nem sempre está presente na consciência daqueles que optam por, de qualquer forma, acolher um animal. E foi dessa lamentável ausência, isto é, da falta de consciência dessa responsabilidade, que, nesse tal dia de 1996, mais uma vez nos apercebemos, quando uma parente nossa, grande amiga dos animais, nos pediu ajuda para proceder ao resgate de uma égua, vítima de gravíssima negligência.

Eis o relato que, com a voz embargada por um misto de tristeza, desespero, e indignação, ela então nos fez:

Na região de Ponte do Lima, perto de um local onde se realizavam, habitualmente, corridas de cavalos, ela deparara-se com uma situação horrível; num campo isolado, totalmente despido de erva, de árvores, e de qualquer outro elemento que lhe pudesse proporcionar alimento ou abrigo, e sem indícios, sequer, de qualquer água disponível para beber, encontrava-se uma égua, num estado de magreza, desidratação, e prostração tão extremos, e de tal forma suja e com o pêlo maltratado, que se tornava impossível determinar se era jovem ou velha, de raça ou não, e se estava doente, ou apenas prestes a sucumbir àquele tremendo estado de fraqueza. O que ela sabia, isso sim, é que era necessário e urgente tirar aquela infeliz égua dali, antes que fosse tarde demais – e, para isso, apelava à nossa ajuda.

Ora, como podíamos nós deixar de, imediatamente, a prestar? Mas é que nem podíamos hesitar… nem perder mais um minuto que fosse! E assim, logo pusemos em prática, em conjunto com a nossa parente, uma operação completa para o resgate… que se revelaria mais atribulado do que, a princípio, imagináramos.

Isto, porque, para começar, viríamos a deparar-nos com – inacreditável, mas verdade – a resistência do proprietário da égua, que nos surgiu com aquele tipo de atitude… que vai para além do primitivismo e da ignorância, e que só conseguimos definir de forma insuficiente, através da seguinte expressão popular: “nem come, nem deixa comer.”

Segundo ele, recebera a égua em “pagamento” de uma dívida, por parte de um proprietário de cavalos de corridas. Não era uma dívida tão pequena assim, mas o “gajo”, que não tinha dinheiro para lhe pagar, convencera-o de que a égua valia isso e muito mais. “Ela é de raça, até tem papéis, querem ver?” – e o que é facto é que o energúmeno foi desfiando, perante os nossos incrédulos ouvidos, argumentos atrás de argumentos para nos convencer… da “justeza” da seguinte pretensão, que… se tornou condição “sine qua non”: “Só levam a égua se ma comprarem, que eu não a dou de graça.”

Já alguma vez sentiram o impulso (quase) irresistível de cometer uma, duas… várias ilegalidades, entre as quais, se calhar, um ou outro crime? Pois… naquele momento, caros amigos, podemos dizer… ou antes, temos que admiti-lo, por muito que tal nos envergonhe, que… foi exactamente isso que sentimos. Desde roubar a égua a esganar o sinistro personagem, tudo nos passou, efectivamente, pela cabeça e pelo coração… mas… desde logo, a nossa urgência em salvar aquela inocente vítima acabou por suplantar tudo o mais, incluindo os tais instintos criminosos e, até, admitamos, o bom senso – e acabamos por fazer algo que abominamos e, convictamente, reprovamos: cedemos à chantagem do indivíduo, e fizemos-lhe uma oferta, que, depois de regatear (!!!) ainda durante um bocado, ele acabou por aceitar!

UFA!!! Sem lhe dar tempo de mudar de ideias, enquanto um de nós acautelava os papéis da égua – fazendo um esforço inaudito para disfarçar a surpresa, pois não só verificamos que a égua – cujo nome de registo era NOUGATINE D’OR – era ainda bastante jovem, como também que provinha de uma linha de Puros Sangues Ingleses tão extraordinária, que o estúpido ganancioso estava, apesar de tudo, bem longe de suspeitar a preciosidade que, de facto, ali tinha… – outros trataram de lhe prestar a assistência possível, que, na realidade, consistiu apenas, porque nada mais tínhamos ali à mão, em dar-lhe água – e… palavra que nunca tínhamos visto um ser vivo beber tanto e durante tanto tempo – e outros, finalmente, diligenciavam arranjar um transporte para a tirar rapidamente dali!

Seguiram-se, ainda, horas de pesadelo, que nos pareceram durar uma eternidade, e ao longo das quais chegamos a temer, em várias ocasiões, perder a nossa amiguinha. O único transporte que fora possível arranjar, tratava-se de um camião de transporte de gado, velhíssimo, todo desconchavado, com as molas todas partidas e cheio de tábuas soltas – e, devido ao seu estado de extrema fraqueza, a NOUGATINE, que mal se equilibrava, caiu várias vezes pelo caminho, que pareceu interminável, entre Ponte do Lima e as instalações equestres da nossa parente, em Riba de Ave (perto do Parque da Terra Nova, espaço unido, pelo coração, à Quinta da Lage, e do qual muito temos falado) para onde, inicialmente, a levámos. Quando lá chegou, a pobrezinha – que um veterinário entretanto chamado por nós já aguardava, para lhe prestar os primeiros socorros – quase teve de ser carregada em peso para uma box. Por outro lado… as quedas, e os embates contra as tábuas velhas do camião, tinham-lhe causado alguns golpes, nos flancos e sobre as costelas, que o veterinário apenas pôde desinfectar e proteger com compressas e ligaduras, pois a magreza da infeliz era tal, que a falta de carne sob a pele e sobre os ossos nem permitia a sutura das feridas!

Ao longo de cerca de duas semanas, a NOUGATINE permaneceu em Riba de Ave, sob o que pode definir-se como cuidados intensivos, ou seja, recebendo a alimentação, os suplementos, e os cuidados veterinários necessários ao seu restabelecimento básico – pois estivera, de facto, muito perto da morte, devido à desnutrição e à desidratação extremas a que a ignorância gananciosa e a negligência criminosa do anterior proprietário a tinham deixado chegar. Passado este período, o veterinário determinou, então, que a égua podia ser transferida para a Quinta da Lage, onde o acesso a excelentes pastagens, combinado com a continuada administração de alimentação e suplementos especiais, iriam possibilitar a sua completa recuperação.

Jamais poderemos esquecer-nos do dia em que a NOUGATINE aqui chegou – nem do turbilhão de emoções que se apoderaram de nós, ao observá-la:

Embora bem limpa e escovada, com as feridas saradas, e um brilho no olhar e uma segurança e equilíbrio nos movimentos que nos transmitiam, com a sua notória energia e vontade viver, toda a esperança e alegria do mundo, a nossa menina estava, ainda, esquelética – e tão ávida, ainda, de hidratação, e, sobretudo, de fontes naturais de nutrientes, que, depois de beber um bidão inteirinho de água, “mergulhou”, literalmente, de cabeça, na erva fresca do prado onde a soltámos… e só a levantou, a contragosto, passado mais de duas horas, quando a isso a “obrigámos”, por considerarmos que pastar por mais tempo, assim no primeiro dia, podia fazer-lhe mal!

E, na realidade, esta cena repetiu-se, diariamente, durante várias semanas, ao longo das quais a NOUGATINE continuou a beber enormes quantidades de água – o que, a partir de um certo ponto, já nos fazia chamar-lhe, com ternura, a nossa “camelazinha”… – e a comer quantidades astronómicas de erva, nas pastagens onde, aproveitando o bom tempo que felizmente reinava, a deixávamos passar a maior parte do dia, sabendo que, apesar da ração especial, dos suplementos minerais e vitamínicos, das cenourinhas, e do bom feno que lhe dávamos, não havia – ou antes, não há – para a recuperação, e posteriormente, manutenção da sua boa forma, como animal da espécie equina, nada como o exercício ao ar livre e os nutrientes proporcionados pelo pasto.

Um ano depois, até a nós, que tínhamos acompanhado a sua recuperação e para ela tínhamos trabalhado desde o primeiro dia, hora a hora, nos custava a acreditar que aquela égua imponente, musculosa, brilhante como cetim, e cheia de vibrante energia, fosse a mesma que, num estado tão desesperado, tínhamos resgatado! Que extraordinária transformação, e que indescritível gratidão sentíamos, quando olhávamos para ela – magnífica, percorrendo, feliz, as pastagens, e… sim, e depois, quando ela, levantando a cabeça, relinchava, em sinal de reconhecimento, e se abeirava das cercas, para nos vir cumprimentar, através do delicioso ritual de “roçar o nariz” no nosso!

Actualmente, já lá vão catorze anos desde aquele inesquecível resgate – que para sempre consideraremos como uma das acções mais significativas e positivas das nossas vidas. Entretanto, a nossa bela NOUGATINE foi mãe por duas vezes – de um soberbo poldro, o KELVERT, em 1998, e da lindíssima CHÁ VERDE, nascida em 2007. E, com perto de 20 anos de idade, ainda em excelente forma, e acorrendo sempre à cerca ou à porta da sua box para nos saudar, goza, satisfeita e tranquila, na companhia da amiga CARNAVAL – uma antiga égua de desporto – a sua “reforma”, nas suas estimadas pastagens da Quinta da Lage!

Aqui a têm, neste magnífico primeiro plano… talvez à espera, quem sabe, de “roçar o nariz” no vosso!

*

(Fotografia de Joseph Sherman)

2 comentários leave one →
  1. 09/03/08 15:24

    Olá, querida amiga! :0)
    Que bela surpresa, ver que encontrou mais este “cantinho” dedicado aos nossos amores de outras espécies! E… pode crer que a NOUGATINE – que cá continua, na Quinta da Lage, velhinha mas sempre linda… – adoraria o seu abraço. Aliás, ela e a filha mais nova – a CHÁ VERDE – agora com 4 anos, e lindíssima (tem a quem sair, pelos dois lados, que o pai – o VERT MUGUET, que também cá vive, claro – é um “pedação” de cavalo, também, LOL!) Quanto ao tal fulano… nunca mais soubemos dele, nem quisemos saber, e teríamos imensa raiva de quem soubesse… excepto se fosse o Belzebu, LOL! Espero que goste, também, das outras histórias… e há muitas mais para contar, pelo que, qualquer dia, havendo tempo, cá virei registar mais algumas!
    Uma grande beijoca, e muito obrigada pela sua visita!
    – Alexandra

  2. 09/03/08 11:51

    Pois eu estou a chorar copiosamente …. que outro comentário posso deixar ? … além da vontade de abraçar toda a gente, a Nougatine, e quem sabe, esganar o tal fulano … !
    🙂
    Fátima

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