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VII – “Metade para o BÓBI”

Tive, há pouco tempo, o prazer de tomar conhecimento, através de um filme enternecedor, da verdadeira e comovente história de HACHIKÕ – um cão da raça “Akita” que viveu entre o final dos anos 20 e o princípio dos anos 30 do séc. XX, e que, ainda hoje, é recordado e reverenciado, no Japão, como um exemplo de lealdade.

Resumindo uma história que, certamente, merece bem ser apreciada em toda a sua dimensão (para o que vivamente recomendo a leitura de um dos vários livros publicados a este respeito), HACHIKÕ foi acolhido em 1924, quando era ainda um cachorrinho, por um professor do departamento de agricultura da Universidade de Tóquio, de seu nome Hidesaburō Ueno. Durante cerca de 1 ano e quatro meses, todas as manhãs HACHIKÕ acompanhou o seu amigo humano à estação de comboios da cidadezinha de Shibuya, aí voltando, infalivelmente, todas as tardes, para o esperar quando regressava do trabalho. Um dia, porém, o professor Ueno não voltou – sofrera um súbito AVC durante uma aula, do qual viria a morrer algum tempo depois. O desgosto e o desespero de HACHIKÕ foram tremendos, mas, ao mesmo tempo, aí começou, verdadeiramente, a história dilacerante da sua lealdade. Depois de ter fugido várias vezes da casa de uns parentes do professor Ueno, que o acolheram após a morte deste, voltando sempre à cidade de Shibuya, e de aí ter permanecido, durante algum tempo, com o antigo jardineiro da casa, HACHIKÕ, tendo acabado por compreender que o seu amado humano já não vivia ali, passou a ir esperá-lo, todas as tardes, à estação dos caminhos-de-ferro, como antes sempre fizera – na esperança de que, um dia, o professor saísse do comboio habitual e ele pudesse correr, como antes, ao seu encontro, para que ambos regressassem juntos a casa. Esta ansiosa espera, e esta esperança, testemunhadas por milhares de comovidos transeuntes, duraram mais dez anos – os anos que restaram a HACHIKÕ, que acabou por morrer, na madrugada de 8 de Março de 1935, numa rua ao lado da estação de Shibuya. A sua morte, noticiada nas primeiras páginas dos mais importantes jornais do Japão, foi vivamente sentida em todo o país, tendo mesmo sido decretado um dia de luto, e HACHIKÕ tornou-se, desde então, num símbolo de lealdade. A sua memória foi perpetuada e continua a ser reverenciada através de uma estátua, erigida, em 1948, em frente à estação de Shibuya – no exacto local onde, durante os seus 11 anos de vida, esperou, todas as tardes, pelo regresso do seu amigo.

Ora, porque é que vos falo, hoje, do HACHIKÕ? Porque, se esse nome significa, em japonês, “cão leal”, e a verdadeira lealdade é aquela que, tal como se verificou neste caso, prevalece para além da morte, então… então, eu tive o imenso privilégio de conhecer um “hachikõ” Português. Aqui fica a sua história:

Teria eu uns três anos de idade quando o Sr. Pedro foi trabalhar, como hortelão, na pequena propriedade onde eu vivia, com os meus pais.

Já não era novo, o Sr. Pedro… ou talvez fosse, na realidade, mais novo do que as rugas, sulcando-lhe o rosto, e a postura ligeiramente curvada poderiam fazer-nos crer. E era simpático, sempre sorridente – e a falha de vários dentes não tornava o seu sorriso menos radioso – cantarolando, desafinado, mas cheio de entusiasmo, alegres melodias enquanto trabalhava.

Mas, o melhor de tudo, era o BÓBI.

O BÓBI era, por assim dizer, a “outra metade” do Sr. Pedro – uma “metade” da espécie canina, de tamanho médio e sem raça determinada, com uns olhos muito vivos e orelhitas espetadas, e um pêlo raso, de um preto luzidio, com marcas bege.

Efectivamente, como duas metades de um todo que se preze, o Sr. Pedro e o BÓBI nunca estavam separados um do outro. Chegavam juntos, de manhã cedo, andavam juntos o tempo todo, na horta, permaneciam juntos durante o intervalo para o almoço, e, ao fim do dia, regressavam juntos a casa – uma casa um pouco distante, onde o Sr. Pedro, viúvo havia alguns anos, vivia com uma filha, ainda solteira.

Tudo, nesta estreitíssima ligação entre o Sr. Pedro e o BÓBI, era feito de partilha. De facto, fosse comida, fosse uma bela sombra em tempo de calor, fosse um cobertor no tempo frio… nunca o Sr. Pedro considerava usufruir do que quer que fosse sem determinar que, de tudo, metade era para o BÓBI. Muitas vezes os observei, durante a hora do almoço – o Sr. Pedro sentado num muro baixo, à sombra de umas grandes tílias, destapando a sua marmita, e o BÓBI sentado aos seus pés, muito direito e expectante, enquanto que ele ia retirando os alimentos, e murmurando: “Metade para mim… metade para o BÓBI”. E assim, “metade para ele… metade para o BÓBI”, iam sendo partilhados bolinhos de bacalhau, broa, iscas de fígado, arroz, batatas… o que quer que fosse que a filha do Sr. Pedro tivesse posto na marmita. Mas não só – também o que quer que fosse que a Ana, a cozinheira da casa, oferecesse ao Sr. Pedro para o seu lanche, uma sandes, um bolo, outro qualquer petisco, ele agradecia, e ia repartindo, infalivelmente, “metade para ele… metade para o BÓBI”.

E, como eu acima referi, a partilha não se ficava pela comida; lembro-me perfeitamente de que, num certo dia de Inverno, muito frio, o Sr. Pedro se dirigiu à Ana, perguntando-lhe: “Ó menina, não tem por aí uma manta, ou um cobertor velho?” – “Tenho sim, Sr. Pedro”, retorquiu ela, um pouco surpreendida. “E para que é?” – Resposta, com um largo e desdentado sorriso: “É para eu fazer uma sesta, ali no barraco, mais o BÓBI!”

Mas havia, nesta extraordinária relação, outra faceta – e se, na partilha total, se manifestava o amor do homem pelo cão, era neste outro aspecto que se revelava a absoluta dedicação do BÓBI ao Sr. Pedro:

É que o simpático hortelão tinha um vício: gostava demais de bagaço… e, na verdade, ao regressar a casa ao fim do dia, nunca deixava de parar num tasco das redondezas, para enfiar vários copitos! De tal forma que, quando finalmente decidia pôr-se ao caminho, as pernas, a maior parte das vezes, não lhe obedeciam… e o Sr. Pedro lá acabava estatelado numa valeta, a cantar a plenos pulmões, ou então, se a dose tivesse sido maior… inconsciente.

O que fazia, então, o BÓBI? Pois, dependendo da distância a que estivessem, ainda, de casa, ou se sentava, pacientemente, junto do amigo, esperando que a cantoria acabasse ou ele acordasse da bebedeira e se levantasse, retomando o caminho – e este “cai, espera, levanta” podia repetir-se inúmeras vezes – ou então, se já estivessem perto, e visse que era seguro deixá-lo por uns momentos, corria a casa, para avisar a filha do Sr. Pedro, através de excitados latidos e saltos, de que era preciso ir socorrer o pai!

Esta rotina era bem conhecida de quantos passavam por ali – e todos admiravam a abnegação do BÓBI, que, chovesse ou fizesse sol, houvesse ainda luz do dia ou estivesse já noite cerrada, ali se mantinha, guardando a sua “metade humana”, e não deixando ninguém aproximar-se… ou então, se já estivessem próximos do destino, correndo a avisar a única pessoa em quem ele confiava, a filha do Sr. Pedro, para lhe vir acudir!

Mas da verdadeira dimensão desta dedicação, desta lealdade maravilhosa do BÓBI para com quem tudo, com ele, partilhava, só viriam, aqueles que os conheciam, a aperceber-se quando…

… Pois bem, ao final de um certo dia, por sinal também de Inverno, ainda longe de casa, o Sr. Pedro, bastante toldado, como de costume, caiu… com tanto azar, que bateu com a cabeça numa pedra, e morreu. As horas foram passando, a escuridão foi-se adensando, começou a chover… e, em casa, a filha do Sr. Pedro começou a ficar aflita: o pai não chegava, o BÓBI não aparecia, ninguém passara por ali a dizer, como às vezes acontecia, que ambos estavam algures, no caminho – o Sr. Pedro estatelado e o BÓBI, como sempre, vigilante – pelo que algo de grave devia, por certo, ter acontecido.

Já muito angustiada, a rapariga decidiu, finalmente, meter-se ao caminho – e, infelizmente, não tardou muito até que o seu pior receio se confirmasse: numa parte isolada da estrada, junto a uma bouça, o pai jazia na berma cheia de pedregulhos, com a cabeça ensanguentada – e com o BÓBI deitado junto dele, completamente encharcado, a cabecita pousada sobre o seu corpo inanimado, ganindo baixinho.

Correndo ao tasco, desesperada, a pobre moça lá conseguiu pedir ajuda… mas, aqueles que, de imediato, acorreram, com ela, ao local, logo compreenderam que nada havia a fazer.

O enterro do Sr. Pedro realizou-se dois dias depois – e embora a princípio alguns tivessem tentado enxotá-lo, a filha acabou por permitir que o BÓBI não se afastasse do caixão do pai, por um momento sequer, ainda em casa, e que, depois, acompanhasse o cortejo fúnebre ao cemitério. Afinal, o BÓBI fora o companheiro leal de muitos anos, o amigo e guardião dedicado daquele homem, que tudo repartia com ele… era justo que lhe fosse reconhecido o direito de partilhar, também, daqueles últimos momentos, e de se despedir.

Porém, para o BÓBI, a partilha, que fora sempre “a meias”, em vida do seu amigo, não terminava ali, agora que ele morrera, e… não pretendia despedir-se, pois só aspirava a continuar na companhia dele, como, afinal, sempre estivera.

O BÓBI morreu, de inanição, passadas várias semanas, na campa do Sr. Pedro, sobre a qual se deitara, logo após o enterro, nunca mais de lá tendo saído, apesar das tentativas da filha para o levar consigo – e, porque a sua metade humana já não estava ali para a partilhar com ele, o cãozinho nunca mais tocara na comida que a rapariga, compadecida e comovida, passara a levar-lhe ao cemitério.

Finalmente, estavam os dois juntos, como um só, outra vez…

… E lá, onde quer que estejam, o BÓBI deve continuar a tomar conta do Sr. Pedro, para quem, por sua vez, tudo deve, certamente, continuar a ser… “metade para o BÓBI”!

~

Nota: Infelizmente, não há fotografias do Sr. Pedro e do BÓBI. O cão da imagem, que, de certo modo, o faz lembrar, chama-se BLACK e vive no P.T.N.

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