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III – Uma história com “jericus”

“Quando as florestas andavam, os peixes voavam, e os figos nasciam dos espinhos, num qualquer momento em que a Lua se fez sangue, então, por certo, eu nasci (…) andante paródia do Diabo de todas as criaturas de quatro patas; o “sem-lei” da Terra, de ancestral teimosia…” – Do poema “O Burro”, de G. K. Chesterton

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“Quem tem cu, tem medo” – Ditado popular

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Chegaram até nós numa dourada e cálida tarde de Outono, em princípios da década de oitenta.

Decorria então uma campanha, levada a cabo por pessoas de boa-vontade, no sentido de consciencializar outras pessoas de boa-vontade do declínio – quase extinção – do Burro Ibérico, como raça, no seu “habitat” natural, nesta parte da Península.

Depois de milénios de domesticação e utilização como “besta de carga” e precioso auxiliar nas tarefas agrícolas, o burro (Equus Asininus) foi gradualmente substituído, no nosso País como em muitas outras partes do mundo, por todo o tipo de maquinaria mais moderna. Assim, o interesse por esta espécie, outrora tão popular – mesmo em actividades de recreio, e outras ligadas a simpáticas tradições regionais – foi decrescendo, e o número de exemplares diminuindo, ao mesmo tempo que grande parte dos poucos ainda existentes começaram a ser vítimas de negligência e, mesmo, de abandono.

Assim, o objectivo da referida campanha – de início desenvolvida, simplesmente, por indivíduos bem-intencionados, com o auxílio de associações não governamentais vocacionadas para a preservação do meio-ambiente e da fauna selvagem e / ou autóctone, e que, ó milagre dos milagres, tinham conseguido, mais tarde, algum apoio oficial – era o de devolver ao Burro Ibérico a sua dignidade, como espécie autóctone, e proporcionar-lhe, tanto quanto possível, os cuidados e as condições de segurança necessários à sua preservação e reprodução – preferencialmente em liberdade, dentro de reservas naturais, mas também, em alguns casos, em cativeiro.

Para atingir este objectivo, diversas acções estavam, nessa altura, a ser implementadas – entre as quais, a designação de áreas protegidas, onde o acompanhamento dos animais seria feito por veterinários devidamente qualificados, e, por outro lado, a atribuição de um pequeno subsídio de 15.000$00 (equivalente a € 75,00) anuais, por cada exemplar que qualquer entidade privada se propusesse adoptar, comprometendo-se a respeitar algumas regras destinadas, essencialmente, a assegurar o seu bem-estar e segurança.

Tomamos conhecimento desta nobre campanha através de um dos veterinários que, à época, davam assistência aos nossos animais, e, em breve, após alguns telefonemas e impressos preenchidos, recebemos a agradável notícia de que nos tornáramos, oficialmente, “custódios” de um casal de jovens e saudáveis jericos!

E foi assim que eles nos chegaram, na tal dourada e cálida tarde de Outono. Baptizámo-los com os nomes de “Gusta” e “Jerómino”, e, com esta ilustre parelha, inaugurou-se, na nossa quinta, uma era interessantíssima, recheada de episódios curiosos, tocantes, divertidos… e, alguns, verdadeiramente anedóticos!

É um destes últimos que aqui venho, hoje, partilhar convosco:

O “Jerómino” e a “Gusta” estavam connosco há cerca de um ano, e chegara, entretanto, mais uma época de vindimas.

Como de costume, para reforçar a nossa equipa fixa, tinham sido contratados vários trabalhadores sazonais – alguns dos quais já desde há longos anos participavam, sem falhar, em todas as nossas vindimas. Eram homens e mulheres daquele tipo sadio, robusto e jovial, cuja vivacidade, energia, e olhos brilhantes, parecem contestar a prova, traçada em mapas de fundas rugas nos maravilhosos rostos, das suas já longas jornadas pelo caminho da vida.

Naquele tempo, muitas das mulheres mais velhas vestiam, ainda, umas saias relativamente compridas – mais ou menos pela barriga da perna – e bastante justas (nunca deixava de me espantar a ligeireza e facilidade com que conseguiam movimentar-se, assim enfaixadas naqueles “tubos de tecido”) sob as quais, normalmente… não usavam cuecas.

Pois bem, numa tarde daquele ano, andando os vindimadores a trabalhar numa vinha que fica assaz distante das instalações agrícolas e de apoio – designadamente, dos sanitários – uma das tais mulheres mais velhas foi, de súbito, acometida por uma certa “necessidade” urgente – e, consciente de que jamais conseguiria chegar a tempo à casa de banho, embrenhou-se, tão discretamente quanto possível, na espessura favorável e reservada de um pomar de pereiras que havia ali perto, e onde as árvores, plantadas em “bardos”, formavam sebes longas, altas, e densas.

Entretanto, e como todos os jericos, criaturas espertas e extremamente curiosas, a “Gusta” e o “Jerómino”, que tinham sido levados, nessa manhã, para uma pastagem próxima, tinham arranjado forma de “mergulhar” por baixo da cerca, e, sem que ninguém disso se apercebesse, tinham-se escapado para o pomar onde a tal senhora, agachada, e de saia “tubular” arregaçada até à cintura, se “aliviava” – plenamente convencida de que, naquele reduto frondoso, se encontrava ao abrigo de quaisquer indiscrições. O que ela não sabia, era que não existe tal coisa como um jerico discreto… e que dois, aliás, se encontravam mesmo ali, mirando descaradamente a sua… “retaguarda” exposta e indefesa!

Logo, porém, já os dois atrevidos estavam a soprar-lhe, literalmente, no… bem… sim… hum… no pescoço. E o facto é que a pobre mulher apanhou um “cagaço” de tal modo violento, que, sem pensar sequer em deitar as saias abaixo, desatou a correr pelos corredores do pomar fora, aos berros, de braços no ar e traseiro (e o mais) ao léu – com os burros a trotar, alegremente, atrás dela!

Foi esta, caros leitores, a cena burlesca que se desenrolou perante os olhos dos companheiros da nossa heroína – os quais, alarmados pelos seus gritos de angústia, tinham acorrido em massa ao pomar. E quaisquer intenções que eles pudessem ter de socorrer a sua desafortunada colega, naquela situação que agora verificavam não ser perigosa, mas, isso sim, altamente constrangedora, ficaram afogadas, logo ali, numa imensa onda de gozo e de incontroláveis, estrondosas gargalhadas!

Mesmo quando todos conseguiram controlar-se o suficiente para avaliarem a aflição em que a pobre senhora se encontrava, e algumas das outras mulheres foram ajudá-la a “compor-se” enquanto dois homens conduziam os burros de volta à pastagem, irreprimíveis fungadelas de riso não paravam de eclodir a cada momento – e assim foi, durante o resto da tarde.

E o gáudio continuou, na verdade, pois quando, à noitinha, os trabalhadores se juntaram no pátio da adega para o jantar que sempre, nesse tempo, e durante as vindimas, lhes era servido, todos rodearam a boa velhota, comentando, divertidos, o sucedido – e tentando, espirituosamente, ajudá-la a encarar com descontracção aquela que, uma vez passado o abalo inicial, ela compreendia ter-se tratado de uma situação caricata.

Assim, gradualmente, o embaraço da pobre senhora foi-se diluindo, e em breve já ela própria se penitenciava, com piada, por ter sido tão “trenga” – quando, conduzidos por um rapazinho que, ainda hoje, já homem feito, trabalha connosco, o “Jerómino” e a “Gusta”, que costumavam ficar estabulados à noite, irromperam pelo pátio… e, provavelmente excitados com a presença de tanta gente, desataram a zurrar atroadoramente.

“Eia, c’um carago, ó “Se” Micas!” – exclama, de repente, o irreverente moço: “Parece que os seus admiradores ficaram contentes por vê-la!”

Pode calcular-se o coro de gargalhadas que este aparte, entre brincalhão e trocista, fez reboar naquele pátio!

Mas o melhor de tudo, a verdadeira “coroa de glória” de todo este extraordinariamente cómico episódio, foi a réplica, taco-a-taco, e demonstrativa do mais admirável senso de humor, da excelente velhota:

– Pois parece que sim, filho… e queres saber? Também eu fico contente por os ver! Afinal, na minha idade, ter “inas” que seja só um burro a apreciar o meu cu murcho, já é uma grande coisa, “canto” mais dois!

*

Notas & Citações:

Na foto, “Jerómino” – à esquerda – e “Gusta” – à direita.

Infelizmente, já nenhum dos três estupendos protagonistas desta história se encontra entre nós. A “Se” Micas faleceu, muito velhinha, há já muitos anos – assim como os dois “jericus”, estes mais recentemente, mas também com idades muito avançadas, primeiro o “Jerómino”, e depois a “Gusta”. Destes ficou-nos, contudo, uma descendente – a “Benta Bentoínha”, nascida em 1992 e um dos bichinhos bebés mais fofos que até hoje vi, e que actualmente, já “entradota”, vive feliz, na nossa quinta, na companhia dos, respectivamente, mais velho e mais novo membros da nossa comunidade equina: O “Sébastien”, já com trinta anos de idade, e a “Chá Verde”, com apenas dois.

3 comentários leave one →
  1. Jorge Manuel Gonçalves permalink
    09/03/08 00:25

    Eh…eh…eh… Muito giro é o termo!

  2. Alexandra Oliveira permalink*
    09/03/08 19:06

    Olá, caro conterrâneo Marcelo! :0)
    Antes de mais, muito obrigada pela sua visita a este cantinho, que fico feliz por ter encontrado! O burrito que “dava as horas” era o “Jerómino”… e, de facto, atroava a freguesia com o seu “relógio zurrante” a todas as horas, sem falhar! :0) Deixou-nos saudades… mas, felizmente, ainda cá temos a descendente dele e da “Gusta”, a “Benta Bentoínha”… que ficará certamente muito contente se o Marcelo cá vier um dia fazer-lhe uma visita à Quinta da Lage! E todos nós teremos muito prazer em recebê-lo!
    Um abraço, da
    Alexandra

  3. 09/03/08 12:54

    Tive a sorte de ver, ainda miúdo, estes dois burros, que de “burros”, nao tinham nada! Alias, lembro-me bem que à falta de campainha a anúnciar a hora de saída da escola primaria, que frequentava na altura, eram eles, ou um deles, nao sei qual, que anunciavam essa bendita hora!! E com grande pontualidade…

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