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V – Quando um perú ladra…

“Quando acasalam, os perus pensam em cisnes.” – Johnny Carson (comediante)

barkingturkey

Mas, quando um peru ladra… não podemos deixar de magicar em que estariam a pensar o pai e a mãe, enquanto acasalavam!

Quando um peru… “ladra”?!

Sim, leram correctamente. “Quando um peru ladra”, não se trata de uma cena saída de um pesadelo, induzido por um qualquer complexo de culpa, em que um peru se transforma, de repente, num cão feroz que nos persegue, de dentes arreganhados, com intentos de vingança – ou, do ponto de vista do peru, talvez de justiça, por todos os seus colegas perus que também perseguimos, apanhamos, e dos quais fizemos um banquete, ao longo de muitos e recorrentes assados, no nosso desprezível passado de comedores de perus;

“Quando um peru ladra”, não é (necessariamente) um sinal de que as nossas faculdades mentais estão seriamente diminuídas, ou as nossas faculdades auditivas gravemente baralhadas;

E, “quando um peru ladra”, é certo e seguro que ficaremos tão assarapantados como se o nosso cãozinho, de repente, nos miasse, ou aquele poderoso elefante, no Jardim Zoológico, entoasse, subitamente, uma ária da “Tosca”, em voz de soprano.

“Quando um peru ladra”, algo de muito bizarro e altamente inverosímil torna-se numa história verídica. Uma história muito bizarra e altamente inverosímil, por certo… mas nem por isso menos verídica. Permitam-me que a partilhe convosco:

Tudo começou, realmente, com uma oferta de quatro magníficas “Sedosas do Japão” (1) muito fofas, e brancas como a neve (três galinhas e um galo, aliás), há já vários anos.

Nessa época, as únicas aves de capoeira existentes na nossa quinta pertenciam ao Sr. António, tratador dos cavalos, que mantinha algumas galinhas num barraco, e cuja mulher, a Sra. Alzira, as soltava todos os dias, durante um par de horas, para que debicassem à vontade na erva, sob a sua própria e “feroz” vigilância – não fosse algum dos muitos gatos vadios que então havia por ali achar aquelas criaturas cacarejantes demasiado tentadoras … como “pitéu”!

No entanto, quando as quatro já referidas alvas e exóticas “Sedosas” chegaram, e o generoso autor daquele belo presente nos informou dos seus hábitos alimentares e outros pormenores relativos ao seu cuidado, avisando-nos também de que elas muito apreciavam arbustos onde pudessem esconder-se, e árvores onde pudessem empoleirar-se, chegamos imediatamente à conclusão de que não tínhamos um espaço adequado onde alojá-las.

Foi então que decidimos construir um belo aviário, muito espaçoso, e com um ambiente o mais natural possível, onde as nossas novas e “fantabulosas” aves pudessem ficar confortavelmente instaladas – bem como a salvo daqueles espertos felinos, que sabiam tudo o que há para saber acerca de arbustos que se devassam e árvores que se trepam – e que pudessem partilhar com a sua mais rústica parentela, que assim viveria, sem dúvida, muito mais feliz (tal como a Sra. Alzira, que deste modo se veria livre do seu auto-imposto, mas nem por isso menos extenuante, ofício de “pastora de galinhas”).

Alguns anos mais tarde, o novo aviário – sombreado, na altura, por uma frondosa latada, e equipado com poleiros, diversos comedouros e bebedouros pendurados, a alturas diferentes, do “telhado” de resistente rede – instalado, tal como as “paredes” do mesmo material, com o propósito de defender as aves de quaisquer predadores – uma pequena “piscina” (na realidade, uma das valas de água, em plástico, que utilizamos como obstáculo, entre outros, no treino dos cavalos de Salto), duas “maternidades”, e diversos “ninhos” para pombos e rolas – tornara-se, entretanto, o lar de uma variegada “população” emplumada, em vias de… expansão.

Lá estavam, obviamente, as esplêndidas “Sedosas do Japão”; às iniciais quatro, a amabilidade do mesmo benemérito tinha, entretanto, acrescentado mais umas quantas, mas de cor preta – uma das quais, finada há pouco tempo de velhice, exibia o mais extraordinário chapéu de plumas (tipo “Rainha de Inglaterra nas corridas de Ascot”) que alguma vez tivemos o prazer de admirar. E, com todas elas, um descaradíssimo e plebeu garnizé, recentemente adquirido, “fundara” uma nova geração de “mestiços”, desgrenhados e refilões.

E agora havia, também, galinhas comuns, alguns patos, um quinteto de “Galinhas da Índia” (barulhentas como o caraças…), várias rolas e pombos que entravam e saíam à vontade, através de uma “janelinha” estrategicamente colocada na rede, um casal de magníficos faisões “Faraó” – e, por último, mas não menos importante, o “Dominguinhos Coquita”. Este personagem de nome tão extraordinário como a sua personalidade, era, na realidade, um vulgar frango ruivo, de pescoço careca, que fora chocado pela faisoa, e que a seguia para toda parte – enquanto ela, por seu lado, continuava a protegê-lo e a aninhá-lo, mesmo depois de ele ter atingido o dobro do seu tamanho, como se da sua verdadeira mãe se tratasse!

Entretanto, decorreram mais uns anos, e começaram a chegar os perus. Havia já algum tempo que o Sr. António tratador se reformara e regressara, com a família, ao seu Alentejo natal – e fora substituído, nas suas funções, pelo Zé Carlos. Este, tal como o seu antecessor – e para além, é claro, de um excepcional talento para lidar com os cavalos – tinha (e ainda tem) imenso jeito para a “criação”, e mantinha, agora, os seus próprios patos e galinhas no nosso aviário.

Também ali, por outro lado, e com o nosso acordo, o Zé Carlos iniciara e desenvolvia, com êxito, a actividade de comprar pintos na feira semanal de Famalicão, criá-los até à fase “poedeira de ovos” ou… “pronto para consumo” – e então, guardar alguns para uso da sua própria família (enquanto a nossa, neste arranjo, recebe uma bela provisão de ovos, todas as semanas) ou para reposição, e vender o resto, a uma pequena mas fiel clientela, aqui na aldeia.

Foi durante uma dessas expedições semanais à feira de Famalicão, numa fria e morrinhenta manhã de Outono, que o Zé Carlos descobriu uma ninhada de peruzinhos escanzelados, tiritantes, e com um ar muito infeliz, que ninguém parecia interessado em comprar – embora o “galinheiro”, que já tinha vendido toda a restante bicharada e estava ansioso por se ir embora, estivesse a oferecê-los a um preço realmente baixo.

Pessoa de muito bom coração, o Zé Carlos não teve coragem – muito embora já tivesse comprado os pintos que lhe interessavam, e não estivesse a planear gastar mais dinheiro – de deixar os pobres peruzinhos, tão tristonhos e magricelas, para trás. E portanto, lá os pagou ao homenzinho, meteu-os numa caixa de cartão, e trouxe-os para a Quinta da Lage.

Por alturas do Natal, e graças ao carinho e aos eficientes cuidados do Zé Carlos, os peruzinhos, antes tão miseráveis, tinham-se transformado em soberbos, enormes exemplares, que se pavoneavam majestosamente no aviário, ante o deslumbramento de todos. O mais deslumbrado, contudo, era o próprio Zé Carlos, que se afeiçoara deveras aos seus agora gigantescos protegidos. Estes, por sua vez, demonstravam abertamente o seu afecto por ele – e era um prazer observar aquelas criaturas imponentes, apinhadas em torno do seu benfeitor – cuja voz eles claramente reconheciam – mirando-o com adoração, e pedindo, inequivocamente, afagos.

Eu nunca tinha visto nada assim, e compreendia perfeitamente a relutância do Zé Carlos em ceder ao ponto de vista nada emocional, muito prosaico, e inteiramente prático, do bom povinho da freguesia – que, ante a aproximação da época festiva, começara inevitavelmente a instá-lo a vender os “Arcebispos” (como nós lhes chamávamos), para que pudessem seguir o seu destino de… “uma assadeira, com recheio no cu e batatas em volta, que é para isso que servem os perus, carago!” – E por isso, apoiei-o sem reservas na decisão de mudar o tal destino – delicioso, talvez, mas terrível (2), mesmo assim – e deixar que os perus vivessem, fossem felizes… e tivessem muitos peruzinhos!

E assim foi – e, por alturas do fim da Primavera seguinte, os “Arcebispos” e as suas “Damas” já tinham produzido uma bela descendência, que parecia ter herdado o carácter amistoso dos seus progenitores.

Foi então que, uma tarde, estando eu a admirar os amigáveis “criaturinhos”, que tinham acorrido à porta do aviário para me cumprimentarem, decidi brincar um pouco com eles… e tentei imitar o seu “gluglugluglu”, para ver se respondiam. E a minha imitação não deve ter sido tão má assim, porque logo fui contemplada com um coro de sonoros “gluglugluglus” em retorno… e também com algo semelhante… sim, a um agudo latido.

A princípio, não dei importância àquilo. Afinal, os cães andavam a correr e a farejar por ali, e um deles, que ladrava num tom bastante estridente quando estava excitado, podia muito bem ter encontrado algo de interessante, nas imediações do aviário. Por isso, entusiasmada com o meu prévio sucesso em “falar língua de peru”, continuei a lançar os meus “gluglugluglus”, encantada com os calorosos “gluglugluglus” que recebia em resposta… até que deixei de conseguir ignorar que, por entre os referidos “gluglugluglus”, havia, sim, definitivamente, havia um inconfundível “au-au-au-au”… e não, definitivamente, não provinha de nenhum dos cães.

“Porra…” – pensei para comigo – “… ou estou a “passar-me” de vez… ou um destes peruzinhos está a ladrar-me!”

Só para ter a certeza, lá atirei mais um “gluglugluglu”… e, evidentemente, por entre o coro de “gluglugluglus” logo recebido em réplica, lá veio aquele assombroso “au-au-au-au” – que, dessa vez, consegui acompanhar até à sua origem: O mais pequeno dos peruzinhos – que, ainda por cima, me olhava, muito atento, inclinando a cabecita de um lado para o outro, exactamente como os cães fazem!

Como o Zé Carlos se aproximava, então, trazendo um molho de couves para as aves, eu, completamente estupefacta, gaguejei: “T… t… tens a… a… aqui um p… p… peru q… q… que la… la… ladra!” – ao que ele retrucou, com compreensível estranheza: “Tenho aqui um… quê?!”

Repeti, então, num tom já mais seguro: “Tens aqui um peru que ladra!” – e, sem esperar por outra reacção, acrescentei: “Queres ouvir?” – e, para lhe demonstrar (e a mim própria, também) que não estava a “tresler”, nem nada que se parecesse, entoei o meu melhor e mais ardente “gluglugluglu”, logo ecoado pelo consabido coro de “gluglugluglus”… e pelo infalível “au-au-au-au” do tal peruzinho!

Olhei, com ar triunfante, para o Zé Carlos – que quase deixara cair as couves e pasmava, boquiaberto, para o fenómeno. “C’um carago…” – murmurou ele. E, de repente, experimentou, também, um sonoro “gluglugluglu” – obtendo, em resposta… bem, já sabem! – um valente coro de “gluglugluglus”… e o inevitável “au-au-au-au”!

“Achas que isto se deve ao facto de “ele” ser assim tão pequeno?” – alvitrei, numa tentativa de introduzir algum senso comum naquela incongruente situação. “Não sei, pode ser!” – suspirou o Zé Carlos. “Só podemos esperar… e ir vendo!”

E esperamos… e fomos vendo… e fomos ouvindo, atentamente… e o facto é que, à medida que a Primavera foi dando lugar ao Verão, e aquela ninhada de peruzinhos se foi, gradualmente, transformando noutro lote de magníficos perus adultos – mais um “Arcebispo” e seis “Donzelas” – nós acabamos por capacitar-nos de que, enquanto todos os outros continuavam a “falar” “gluglugluglu”, aquele… ou melhor, “aquela”, visto que se tratava, afinal, de uma perua, continuava… a ladrar, e ainda mais “caninamente”, se possível, de todas as vezes que passávamos por perto do aviário!

E pronto, caros leitores, é esta a história – que aqui vos deixo ilustrada com uma fotografia da prodigiosa protagonista, entretanto baptizada com o nome de “Genoveva” … a qual, por certo, e conforme já terão adivinhado, NUNCA se tornará um assado!

Provavelmente, nunca saberemos por que razão, entre todos os perus que temos conhecido pela vida fora, e que se expressam no idioma universal dos perus, o “gluglugluglu”, existe uma perua – esta específica perua – que… ladra.

O que sabemos, isso sim, é que, se o pai e a mãe – perus da “Genoveva” pensaram, realmente, noutra espécie, enquanto acasalavam… em cisnes é que não foi, com certeza!

~

Notas & Citações:

(1) – As “Sedosas do Japão” são uma das mais antigas raças conhecidas de aves de capoeira. Diz-se que Marco Polo terá deixado notas escritas acerca destas aves, que terá observado durante as suas viagens ao Oriente, no século XIII. As “Sedosas” têm uma aparência muito invulgar; as suas penas não possuem as bárbulas que lhes dão o formato tradicional, e têm, por conseguinte, o aspecto de pêlo. Para além disso, a pele e os ossos destas aves – que têm cinco dedos – são de cor preta, os lóbulos das suas orelhas (situados, como nas outras aves, mais ou menos sob os olhos) são de um azul-turquesa quase iridescente, e a sua crista, com o formato de uma pequena noz, é cor de amora, o que, em combinação com as “botas de pêlo” que lhes cobrem as patas, as torna numa das mais exóticas variedades de aves de capoeira… isto, claro, se não contarmos “perus que ladram”!

Para verem algumas fotografias destas aves surpreendentes, sugiro uma visita à seguinte página: “A natureza não faz nada em vão…”

~

(2) – Não me interpretem mal – não sou vegetariana, e embora respeite aqueles que o são tanto como aqueles que, como é o meu caso, não o são, devo admitir que os meus sentimentos são, no mínimo, ambivalentes, no que a comer carne se refere. O que acontece é que, embora goste de carne de vários tipos (incluindo carne de peru), e a coma com alguma regularidade… não sou capaz, sequer, de pensar em comer a carne de qualquer animal que me tenha – ou a quem eu tenha – “olhado nos olhos”! E, entre muitos outros animais – porcos, vacas, coelhos, caça – estes perus, acreditem, eram dos tais… cujo olhar nos chega… direitinho à alma!

3 comentários leave one →
  1. Jorge Manuel Gonçalves permalink
    09/03/08 00:56

    Delicioso! Começando pelo título, continuando pela descrição do aviário e seus habitantes e finalizando pelo expressivo latir da D. Genoveva, tudo isto me fascinou. Obrigado Alexandra!

  2. Alexandra permalink*
    09/03/08 09:26

    pois a D. Genoveva muito agradece os elogios, e comunica que terá o maior prazer em receber a sua fã Maria João da forma mais entusiástica, ou seja… ladrando a bom ladrar! :0)
    mais informa – que, na realidade, embora não pareça, a “moça” é modesta… – que as cores vivas do vestuário se devem ao reflexo esverdeado da “rede de sombra” que, desde que foi retirada a latada anterior, colocaram sobre o telhado do… “Paço Episcopal”, para maior frescura! ;0)
    um grande abraço, também, e muitos gluglugluglus… e auauauaus! :0)
    Alexandra & Genoveva

  3. Maria João Oliveira permalink
    09/03/08 13:05

    Gostei MUITO de conhecer a D. Genoveva! A sua exótica língua, a sua esplendorosa indumentária, os seus belos e observadores olhos negros levam-me a pensar que vale a pena conhecer a sua psicologia. Não me parece que ela se deixe hipnotizar por olhos de cobra… No vestir, não é lá muito modesta. As cores e o brilho dão muito nas vistas e poderão, facilmente, atrair a admiração do mais exigente dos Arcebispos… :0)
    Já conheço algumas das suas virtudes, mas ainda não sei se tem algum “defeito”. O que eu já sei é que ela é especial e que “NUNCA se tornará um assado”, como a Alexandra, tão generosamente, nos garante. Assim fico plenamente tranquila. Fiquei muito feliz por ter o privilégio de a conhecer! E quero ouvi-la ladrar, logo que me seja possível. :0)

    A história da D. Genoveva e desse aviário, tão especial, comoveu-me muito. Obrigada, Alexandra!

    Um grande abraço
    Maria João Oliveira

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