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II – Os Visitantes

“E se, numa manhã cintilante, formos despertados pelo firme martelar dos nós dos seus dedos na porta? Não tremeremos?” – Gwendolyn Brooks

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Não era uma “manhã cintilante”. Era, antes, uma noite muito escura, de denso nevoeiro – e só isso, já teria bastado para tornar um súbito e “firme martelar de nós de dedos na porta” assustador… se nós fossemos do tipo assustadiço. Mas não somos, e deixem-me explicar-vos porquê, através de uma breve introdução:

Esta história que vou contar passou-se, há já muitos anos, nesta mesma quinta onde agora vivo. É uma propriedade bastante vasta, que compreende as áreas de cultivo – vinhas, horta e pomares – as pastagens, o espaço onde estão instalados os edifícios de apoio às actividades vitivinícolas e aos serviços equestres – tais como as adegas, as cavalariças, o picadeiro e campo de obstáculos, as oficinas, e o escritório, entre outros – e ainda áreas de bouça e souto, para além das residenciais, rodeadas de parque e de jardins.

Segundo um antigo costume desta região do Norte de Portugal, toda a propriedade é murada, e o acesso aos vários pontos é feito através de diversos portões. No entanto, todos os que aqui vivem há já longos anos, são conscientes de que nenhuma extensão de muros, por mais sólidos, e quantidade de portões, por mais resistentes, tornam uma quinta tão vasta completamente imune aos vários riscos concebíveis, e naturais, de intrusão… e, para além disso, de acordo com vários testemunhos do passado e mais recentes, este lugar é, supostamente, “assombrado”, pelo que pode haver alguns riscos inconcebíveis e sobrenaturais a considerar, também!

Por outro lado, depois de tantos anos a viver na consciência de tais vulnerabilidades, mas, e apesar disso, a não ter outra opção senão acorrer, de carro ou a pé, a qualquer hora do dia ou da noite, e qualquer que seja o estado do tempo, a qualquer parte desta enorme e supostamente assombrada propriedade onde a nossa presença seja requerida, e sabendo que, se em tais andanças precisarmos de ajuda, ela pode demorar a chegar até nós… bem, caros leitores, posso asseverar-vos que se ganha uma considerável “couraça” contra o medo! Contudo, e por muito espessa que tal “couraça” possa ser, há que admitir que, ainda assim, pode haver certos incidentes que nos façam, literalmente, saltar pela “couraça” fora… ou seja, e em linguagem mais directa, saltar de “cagaço”!

Foi isso, precisamente, que nos aconteceu, aos meus pais e a mim, naquela noite. Eis a história:

Eu tinha regressado à quinta, depois de alguns anos a viver noutro lado, e estava temporariamente alojada na casa dos meus pais, enquanto aguardava que as obras da minha nova morada – mais concretamente, a transformação de um antigo conjunto de anexos agrícolas na casa que hoje partilho com o meu companheiro, o Joseph – se concluíssem.

Era uma noite de Domingo, já tínhamos jantado, e estávamos, simplesmente, a relaxar um pouco na sala, antes de nos irmos deitar – o que, era razoável esperar, aconteceria daí a pouco, já que o dia seguinte era de trabalho. Mas então… e mesmo sabendo que, nesta quinta, especialmente desde que nos dedicáramos à actividade, cheia de imprevistos, da criação de cavalos, o inesperado, e até o irrazoável, podia suceder a qualquer momento – oh, sim, mesmo em noites de Domingo, perto da hora de ir para a cama… e depois de estarmos na cama – o facto é que… saltamos, todos, de “cagaço”, quando, de súbito, ouvimos uma série de firmes pancadas na porta da frente!

Depois do susto inicial, porém, o nosso primeiro pensamento foi que talvez aquilo tivesse a ver com uma qualquer emergência com os cavalos. Mas, por outro lado, sempre que havia alguma emergência nocturna – e, acreditem, havia várias, nessa época – o Sr. António tratador, que vivia com a mulher numa das casinhas adjacentes às cavalariças, costumava contactar-nos pelo telefone interno, em vez de percorrer, de bicicleta ou a pé (nem ele nem a mulher tinham carta de condução), toda a distância, relativamente longa, entre as instalações equestres e a residência.

Contudo, e para além das três pessoas ali na sala, e do já referido casal, não era presumível haver mais ninguém na quinta, à noite, já que não tínhamos, então, guardas, e todo o restante pessoal vivia fora da propriedade. Claro que havia sempre a possibilidade de algum vizinho em apuros, algum forasteiro perdido, ou algum gatuno (bom… um gatuno atencioso e bem-educado, que batesse à porta das casas antes de as assaltar) ter conseguido saltar os muros ou os portões… mas o facto é que, quem quer que fosse, continuava a bater, repetidamente, à porta, e portanto, era preciso que alguém se decidisse, de uma vez por todas, a ir lá ver o que se passava. Fui lá eu…

… E, para meu imenso espanto, não vi ninguém à porta! Mal podia acreditar nos meus olhos, mas tinha que acreditar não só nos meus ouvidos como nos dos meus pais, pois, a menos que tivéssemos acabado de ser vítimas de alguma alucinação colectiva, todos tínhamos ouvido claramente, e sem margem para dúvidas, aquela série de pancadas rápidas e enérgicas, àquela mesma porta! Assim, afirmei melhor a vista, não fosse estar ali qualquer vulto encoberto pela escuridão e pelo nevoeiro, mas, passado um bocado, à pergunta da minha mãe – “quem está aí?” – não tive outro remédio senão responder, consternada: “Ninguém!”

Assim, depois de tentarmos digerir este estranho facto durante alguns momentos, e de considerarmos, e logo descartarmos, as hipóteses de termos sido visitados pelo famoso “fantasma” da quinta, ou termos afinal sido vítimas da tal alucinação colectiva, decidimos tomar algumas medidas objectivas. A primeira foi… fechar a porta e esperar. E… não tivemos que esperar muito, pois, menos de dez minutos mais tarde, lá ouvimos aquilo outra vez: “Truz – truz – truz… truz – truz – truz… truz – truz – truz!”

Depois de um par de berros de “quem está ai?”, o meu pai escancarou, de repente, a porta… e, uma vez mais, agora perante três pares de olhos prestes a sair das órbitas de estupefacção, não havia ninguém, nem nada, ali fora – a não ser as árvores, a escuridão, e o nevoeiro daquela noite de Domingo, que se tornava mais arrepiante a cada minuto que passava!

Fechamos, então, e de novo, a porta, e as medidas objectivas às quais passamos de seguida, incluíram alguns palavrões – que não irei reproduzir aqui, mas fáceis de imaginar… e, aceite-se, justificáveis – rosnados pelo meu pai, uma caçadeira, uma pistola de alarme, um bengalão antigo, uma lanterna de pilhas, soltar o “Freddy” (já vosso conhecido da “doce” história anterior e que, como sabem, dormia dentro de casa) e três pessoas esgueirando-se, alternadamente, pela porta das traseiras e por diferentes janelas, e inspeccionando, pé ante pé e com ares façanhudos, todo o perímetro da casa e parte do jardim, em volta.

Não posso deixar de interromper, brevemente, este relato, só para – além de vos fazer sofrer mais um bocadinho… (risada sinistra) – dizer que ainda me diverte… ou antes, diverte-me agora, pois na altura o caso era sério, pensar na nossa figura: O meu pai em chinelos, a praguejar de caçadeira em punho, a minha mãe de pantufas e pistola de alarme apontada ao infinito, eu de pilha em riste e brandindo o bengalão, e o “Freddy”, como bom “Setter”, ainda por cima novinho, feliz da vida com aquela oportunidade inesperada de umas belas corridas nocturnas, e de uns duzentos xixis extra, pouco ou nada se importando com o verdadeiro propósito daquela “expedição”!

Esclareço ainda, quanto aos outros cães, que de nada teria adiantado juntá-los à “operação caça-fantasmas”. A “Mitriki” – a única, entre todos, capaz de cravar mesmo os dentes, se fosse o caso, nas canelas de um estranho – tivera, recentemente, uma ninhada, o “Cisco” detestava bulício, era demasiado medroso, e, estava, de resto, bastante desdentado, e as outras “aquisições” mais recentes – dois “Péquinois”, chamados “Minduim” e “Puzinha”, e o meu cachorrinho “Ralf” (de quem voltarão a “ouvir falar” noutra história) – eram demasiado pequenos, em tamanho ou em idade, para se envolverem nestas andanças.

E volto, enfim, à narrativa… para dizer que, infelizmente, todo este aparato se revelou infrutífero, e que, depois de várias rondas, sem que nada nem ninguém fosse descoberto, “devolvemos” o “Freddy” à sua caminha, as “armas assinaladas” e mais a pilha aos respectivos armários, e as nossas decepcionadas e estafadas pessoas à sala – onde não nos sentáramos nem há um quarto de hora quando…

… Exactamente, adivinharam! – “Truz – truz – truz… truz – truz – truz… truz – truz – truz” outra vez!

Não, bolas, isto, agora, era ridículo! E a nossa determinação – a minha e da minha mãe, pois o meu pai, já farto, declarou que, dali do sofá, só se levantaria para ir para a cama – em resolver, de uma vez por todas, aquele mistério, entre outras razões, para provarmos a nós mesmas que não estávamos doidinhas, pôde mais do que a fadiga e… sim, vá lá, também a irritação que já sentíamos. Lá fomos, portanto, e mais uma vez, até à porta, que a minha mãe abriu muito, muito devagarinho… e, embora continuasse a não haver ninguém lá fora, deparamo-nos, atónitas, com algo que… ou nunca estivera ali antes, ou nenhum de nós, nem mesmo o “Freddy”, tinha notado:

À nossa frente, do outro lado do pátio, a alguns metros da porta, empoleirados num muro baixo que forma um banco sob um velhíssimo e imenso carvalho… estavam três enormes corvos, que nos fitavam, muito quietos, sem temor algum!

Quanto a nós, ali ficamos, em silêncio, a fitá-los, também, durante um bom bocado… com a mesma ideia – ainda laivada de algum cepticismo, no entanto – começando a tomar forma nas nossas mentes:

Teriam sido aqueles corvos quem batera à porta, de todas aquelas vezes?

Era, admita-se, uma ideia um pouco estapafúrdia, já que as pancadas tinham soado, sempre, como produzidas por punhos humanos… mas, por outro lado, sabíamos de sobra que, além de nós três – que andáramos, feitos loucos, às voltas à casa – não havia, definitivamente, outros seres humanos por ali, naquela noite!

Assim, quando o meu pai, passados uns momentos, veio ter connosco, de sobrolho franzido – obviamente com a intenção de nos informar que se ia deitar… e de nos intimar a deixar-nos de parvoíces e a fazer o mesmo, ou então a chamar, de uma vez, a G.N.R. de Famalicão – nós viramo-nos para ele, sorrindo – e a minha mãe, piscando-lhe um olho e fazendo-lhe sinal de silêncio, indicou-lhe, com um aceno de cabeça na direcção do sítio onde os corvos se encontravam, a surpreendente novidade da sua presença!

E quando ele, depois de olhar, incrédulo, os corvos, se voltou de novo para nós, boquiaberto, foi como se ouvíssemos, em uníssono, os nossos comuns pensamentos:

Primeiro – “Ná…”; segundo – “Como poderia ser?”; e terceiro – “Mas… poderia ser?”

Para acabar com as dúvidas, decidimos fechar novamente a porta e esperar. É claro que, poucos minutos depois, lá veio aquilo outra vez: “Truz – truz – truz… truz – truz – truz… truz – truz – truz” – e é claro que, quando voltamos a abrir a porta, não havia ninguém lá fora… a não ser os corvos! Não fora, portanto, um intruso ou um fantasma, mas aquela lustrosa “trindade” cor de azeviche, quem nos fizera passar por tão mau bocado!

Entretanto, o que teria levado três corvos, aves silvestres que são, a aproximar-se assim de uma casa, a não fugir ao alarido causado por três pessoas e um cão em movimentação frenética, e, acima de tudo, a bater, repetida e intrepidamente, a uma porta, como eles o tinham feito?

Talvez – como a minha mãe, às tantas, alvitrou – estivessem com fome. Sem hesitar, dirigiu-se ela própria à cozinha, onde misturou, numa bacia, um pouco do arroz com frango dos cães, e algumas aparas de carne crua, regressando então ao pátio com esta improvisada refeição, que colocou no chão, a uma curta distância de onde os corvos continuavam. Voltou, então, para dentro de casa – e nós três, através de uma frincha, pusemo-nos a observar:

E… sim, a minha mãe acertara em cheio; os corvos estavam mesmo com fome, pois, após alguns momentos de cautelosa espera, saltaram do muro, lá foram até junto da bacia, devoraram, rapidamente, o respectivo conteúdo… e depois levantaram voo, desaparecendo na noite e no nevoeiro!

Não houve mais batidas à porta naquela noite, mas os nossos “Visitantes” voltaram na noite seguinte… e todas as noites, durante cerca de uma semana. Depois, as suas visitas – sempre anunciadas pelas mesmas pancadas na porta – foram-se tornando cada vez menos frequentes, até que cessaram de vez – embora os divisássemos em diversas ocasiões, durante o dia, empoleirados na cerca de uma certa pastagem, particularmente apreciada pelos coelhos bravos devido ao trevo que ali existia. Mas depois, após um período em que ainda os ouvíamos crocitar, de vez em quando, numa bouça próxima, estas extraordinárias criaturas, com grande pena nossa, desapareceram de vez.

Viríamos a saber, mais tarde, que, antes de se tornarem nos nossos misteriosos “Visitantes”, estes três corvos tinham sido criados em cativeiro por um velho lavrador das redondezas, que tratava deles e os alimentava, pessoalmente, todos os dias. Depois, este senhor morrera, e os herdeiros tinham vendido a propriedade a alguém que decidira transformá-la num bairro residencial.

Os corvos tinham sido, então, soltos – mas, e embora, por qualquer razão, não se tivessem mantido nas imediações da que fora a sua “casa”, não estavam, claramente, habituados a valer-se por si próprios, e tinham procurado um lugar onde alguém os alimentasse, como o velho lavrador sempre fizera. Porém, uma vez adaptados, gradualmente, à vida em plena Natureza, e tendo aprendido a caçar, eles tinham-se tornado cada vez mais independentes… e, enfim, tinha chegado o momento de serem verdadeiramente livres!

Por entre tantas opções possíveis – tantas outras quintas, tantos outros lugares próximos, com tantas pessoas que, certamente, gostariam de tomar conta deles – jamais saberemos porque é que os corvos nos escolheram a nós e à nossa quinta. O que sabemos, com certeza absoluta, é que para sempre nos sentiremos honrados com a sua escolha… e também, que nunca esqueceremos aquela incrível, singular noite de Domingo em que eles vieram bater-nos à porta – “Truz – truz – truz… truz – truz – truz… truz – truz – truz!”

*

Notas & Citações:

Como infelizmente não possuo imagens reais dos três corvos protagonistas desta história, recorri a esta bela ilustração da carta correspondente ao Corvo no “Oráculo Druídico dos Animais” – da autoria do artista Britânico Bill Worthington

One Comment leave one →
  1. Jorge Manuel Gonçalves permalink
    09/03/08 00:16

    Truz-truz-truz… Que narrativa tão cheia de cor!

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