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IV – Honra, coração… e tomates

“Se os tiveres seguros pelos tomates, as suas mentes e corações cederão!” – John Wayne (actor)

“Não uso sapatos apertados, ou daquelas calças justinhas, que nos amachucam os tomates.” – George Harrison (músico)

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Eis mais uma história verídica, caros leitores – desta vez, acerca de um dos muitos incidentes, dentro de toda a vasta gama de géneros concebíveis entre a tragédia e a comédia, em que mais de vinte anos de trabalho com cavalos têm sido férteis… praticamente todos os dias.

Realmente, ao longo de todos estes anos, nunca consegui deixar de parar (isto, quando parar se faz possível…) e pensar, encantada, em quão extraordinário é o facto de, nesta actividade, apesar dos aspectos repetitivos do seu quotidiano e das rotinas que ela envolve, não haver um só momento de monotonia!

Por isto, como eu e todos aqueles que têm tido o privilégio de trabalhar com eles sabemos, não temos que agradecer a ninguém senão… aos próprios cavalos – estas fascinantes e multifacetadas criaturas que, com as suas personalidades individuais únicas, têm enchido as nossas vidas de preciosas experiências… e de momentos tão irrepetíveis como inesquecíveis.

Tal é o caso deste particular episódio – que, como verão, engloba, no seu contexto, toda aquela vasta gama de géneros que acima mencionei… em versão combinada. Espero que gostem – e aviso, desde já, que a linguagem é, no mínimo… atrevida, mas totalmente genuína, e, por isso, sem “censura”!

~

Em sintonia com o último, grande esforço expulsivo da “Diana”, o Sr. António tratador puxou, com destreza, para a palha limpa, o enérgico, molhado e escuro poldro – e, levantando-lhe prontamente uma das pernas, anunciou, com um desdentado sorriso de deleite, à assistência que esperava, em ânsias, do lado de fora da “box”:

– É um “menino”!

A “Diana” era uma bela égua de raça “Puro-Sangue Inglês”, cujo pêlo acetinado, de um castanho muito escuro, ganhava reflexos de uma tonalidade quase púrpura, à luz do sol. Inicialmente uma poldra de corridas com obstáculos – “Steeplechase” (1) – com vários prémios ganhos nas pistas altamente competitivas de França, fora retirada das corridas, devido a uma lesão, com apenas 3 anos de idade – e, tal como a maioria das poldras “steeplechasers” com bom “pedigree”, fora imediatamente encaminhada para o mercado da criação de cavalos vocacionados para as competições de Salto de Obstáculos (2).

Foi aí que a encontramos e nos apaixonamos por ela, e acabamos por adquiri-la, em parceria com um amigo nosso, o Zé.

Todos nós, os co-proprietários da “Diana”, ficamos muito entusiasmados quando o veterinário nos confirmou que ela estava prenha do “Prosper” – um poderoso garanhão da raça “Selle-Français”, com um impressionante currículo no circuito internacional do Salto de Obstáculos – e ficamos, obviamente, felicíssimos quando, onze luas mais tarde, nasceu, sem quaisquer complicações, um poldro saudável – cujo sexo o Sr. António nos deu a conhecer, num alvoroço em nada inferior ao de um arauto da corte que anunciasse o nascimento de um príncipe herdeiro!

E apesar de não ter havido soar de trombetas, rufar de tambores, ou salvas de canhão naquela noite de Fevereiro, houve, isso sim, toda a sorte de expressões do maior júbilo, e vários golos bebidos directamente de uma garrafa de champanhe, aberta e passada em volta a todos os presentes, em honra da nobre mamã e do seu magnífico “rebento”.

“Aqui vai à tua, miúdo!” (3) – citou o nosso amigo Zé, agora também orgulhoso co-proprietário do poldro recém-nascido, que, a propósito, foi logo ali baptizado de… “Humphrey”!

Durante cerca de um ano, primeiro na companhia da mãe – e que boa mãe era a “Diana”, tão cuidadosa e sempre vigilante! – e depois junto de outros poldros recentemente desmamados, a vida do “Humphrey” decorreu dentro daquele natural e delicioso contexto que consiste em pastar, galopar, fazer cabriolas, brincar sem restrições, ser alimentado com a melhor ração e o feno mais apetitoso, tomar as vitaminas e os minerais necessários a um equilibrado desenvolvimento físico… e adormecer como uma “pedra”, ao cair da noite, numa “box” ampla e imaculadamente limpa, sem uma única preocupação, dia após dia.

Em breve, porém, chegou a altura de serem tomadas decisões relativas ao porvir menos folgado do “Humphrey” e dos outros poldros, como futuros cavalos destinados às competições de Salto de Obstáculos.

O “Humphrey” tinha crescido muito, sobretudo em altura, e tornara-se um poldro esguio, um pouco desengonçado, sem nada que se parecesse com a formidável musculatura do pai, mas tão excitável como todos os seus aristocráticos antepassados maternos – embora sem a energia e a velocidade que caracterizam um cavalo de corridas. Com um maneio consciencioso e sensato, no entanto, e, mais tarde, com o ensino e o treino adequados, que respeitassem a sua constituição fina e contrabalançassem, com delicadeza, a sua natureza explosiva, as melhores qualidades do “Humphrey” – entre as quais se percebia já um grande talento para o Salto de Obstáculos – poderiam, certamente, afirmar-se e sobressair.

A outra “face da moeda”, porém, era que, com todas as suas já referidas características, o “Humphrey” jamais daria um bom garanhão. E assim, foi trazida à nossa consideração de proprietários responsáveis pelo seu correcto maneio, mas, e acima de tudo, pelo seu bem-estar, a possibilidade de se castrar o jovem cavalo.

“Castrar ou não castrar”… bem, eis a questão, que devia centrar-se no PORQUÊ castrar ou… não. Nas palavras da notável especialista em comportamento equino, Jessica Jahel, “se tivermos um cavalo inteiro que não esteja inserido num programa de criação bem ponderado, deveremos perguntar-nos (…) se é realmente vantajoso para o cavalo mantê-lo inteiro.” – E, no caso do “Humphrey”, nós já sabíamos que a resposta a esta pergunta era NÃO – definitivamente, não era vantajoso para aquele cavalo, ainda que jovem, mantê-lo inteiro; e assim, a outra resposta surgiu naturalmente: SIM – o “Humphrey” seria castrado.

Foram então efectuados os preparativos necessários para a intervenção, que, evidentemente, me absterei de descrever em pormenor, mas que – e permitam-me apenas esta sucinta nota informativa – é geralmente efectuada com o cavalo de pé, sob sedação leve, mas com forte anestesia local. Quando não surgem complicações imprevistas, esta é, realmente, uma intervenção bastante simples e rápida, que implica apenas um breve mal-estar para os jovens cavalos – cuja surpreendente capacidade de recuperação, coadjuvada por anti-inflamatórios e adequados curativos, resulta na sua completa recuperação ao fim de alguns dias.

E de facto, a operação do “Humphrey” não demorou mais que alguns minutos – e correu lindamente, sem quaisquer sarilhos inesperados. Teve lugar num fim de tarde, nas nossas instalações, e, enquanto o Sr. António prestava assistência ao veterinário, eu e o tratador – assistente fomos procedendo aos cuidados habituais dos outros cavalos. Quando o nosso amigo Zé – que tinha tido outros afazeres algures, naquele dia – finalmente apareceu, para saber como tudo tinha corrido, já o veterinário e os tratadores estavam nas limpezas e arrumações finais, e eu nos apontamentos das instruções sobre cuidados pós-operatórios e medicação.

Devo esclarecer, entretanto, que o Zé (ele próprio ligado às actividades equestres desde miúdo) e o veterinário eram bons amigos desde há muitos anos, e que ambos eram – e ainda são – duas das pessoas mais engraçadas e bem-humoradas que alguma vez tive o prazer de conhecer, capazes de, mesmo perante as situações mais complicadas e às horas mais estapafúrdias, sob a maior pressão, a mais séria preocupação, e o maior cansaço, se saírem, de repente, com algum aparte divertido – o que aligeirava, de imediato, a tensão desses momentos, e provocava, muitas vezes, umas boas risadas; sem dúvida, a melhor terapia que pode haver!

Assim, naquele fim de tarde, os gracejos entre ambos começaram de imediato, naquele estilo desbocado a que nos tinham habituado – e que, diga-se de passagem, todos nós apreciávamos muitíssimo!

“Ouve lá, ó meu carniceiro do caraças, como é que está o meu cavalo?” – Perguntou o Zé, o seu tom amigável contradizendo o “insulto”. “Bom…” – retorquiu o veterinário, nada ofendido, e com um sorriso de orelha a orelha – “… certamente muito melhor que tu estarias, nas mesmas circunstâncias! E, já agora…” – acrescentou – “… porque não vais verificar por ti próprio?”

E assim fez o Zé, dirigindo-se à baia onde o “Humphrey”, ainda sob o efeito do sedativo, continuava de pé, mas muito sonolento, com a cabeça pendida. “Ora aqui estás tu, meu pobre cavalinho…” – murmurou o Zé, colocando os braços em volta do pescoço do cavalo – o seu “gancho” perigosamente próximo da boca deste. “O que foi que te fizeram, heim?”

E… ah, povo, nunca uma resposta foi tão… incisiva! Provavelmente sobressaltado, na sua semi-sonolência, por aquele abraço repentino, o cavalo moveu, com a rapidez de um raio, a cabeça, e… ZÁS! – agarrou, com os dentes, na braguilha do Zé, e deu-lhe o puxão mais forte e mais “diabólico” que imaginar se possa!

Estranhamente, os breves instantes que se seguiram, pareceram durar uma eternidade – e todos parecemos ter-nos tornado, de repente, em personagens de algum filme em câmara-lenta. Com um berro estentórico, e um gutural e prolongado “FOOOOOOOOOODA-SE!” – o Zé deu um enorme salto para trás, a sua face mortalmente pálida, e as mãos fincadas no mesmo ponto, entre as suas pernas, sobre o qual cinco pares de olhos esbugalhados de horror – incluindo os dele – hipnótica e imediatamente convergiram.

Então, e após o que nos pareceu uma vida inteira, as mãos do Zé começaram, lentamente, a abrir-se, destapando, milímetro a milímetro, o que todos nós, ainda “petrificados”, receávamos fosse… um cenário de total destruição!

Contudo, caros leitores – e o suspiro colectivo que se seguiu, foi expressivo de um alívio tão absoluto, que apenas posso compará-lo… digamos, ao de uma alma longamente extraviada, que regressa ao seu longamente perdido corpo – a única “devastação” que, perante nós, surgiu… foi um colossal buraco, e farripas de veludo canelado adejando em torno de um “conteúdo” visivelmente ileso, resguardado por cuecas intactas e de imaculada brancura!

Explorando a “cavidade” com dedos ainda indecisos e trémulos, mas com alguma cor começando a regressar-lhe ao rosto, o Zé, ainda assarapantado, olhou em redor, depois para o “Humphrey” – que retomara, calmamente, a sua “sesta” – e depois para nós, balbuciando: “Pois digo-vos uma coisa… pensei que o filho da puta me tinha arrancado as minhas jóias!”

Pois bem, muito como sucede quando se tira o tampão de uma banheira cheia, esta tirada libertou, de uma vez, toda a tensão acumulada naquela cavalariça – e, acto contínuo, explodimos todos num ardente ataque de riso! Nunca poderei esquecer-me do Zé Carlos – o nosso actual tratador-chefe, então ainda um jovem assistente – debruçado sobre um fardo de feno, aos coices, urrando de riso – ou o Sr. António, bom Alentejano de Montemor, interpelando, com descaro, e entre gargalhadas, o nosso amigo: “Atão, patrão “Zéi”, agora diga lá que “escusa” vai dar à sua senhora, “cande” ela lhe “olhari” aí “prás” bandas do “Suli”, logo à “noiti”!

Mas o que quase nos “matou” de gáudio, foi o momento em que o nosso excelente mas incorrigível veterinário, num lance do mais perfeito humor-negro, correu para o balde onde os “resíduos” da operação ainda aguardavam que tratássemos deles, e regressou, brandindo, triunfante, os testículos do cavalo – “Toma lá, pá! Não posso fazer nada pelas tuas calças, mas aqui tens “estes”, lindos, e ainda quentinhos, caso precises de uma substituição!”

“Oh, vai para o x.*& $%!# !!!…” – retrucou o Zé, já mais relaxado. E, examinando pensativamente os pedaços de veludo rasgado, deixou escapar um estrondoso suspiro, e rematou, com determinação: “O que vos juro, a todos, pela minha honra, do fundo do meu coração, e, sobretudo, pelos meus preciosos tomates…” – e não resistiu a dar-lhes um carinhoso apertãozinho – “… é que, daqui por diante, nunca, nunca mais, em caso algum, usarei outra coisa senão o raio das calças mais largas e com o gancho mais folgado que conseguir encontrar!”

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Notas & Citações:

Na foto, o “Humphrey”, durante uma entrega de prémios num concurso hípico, cerca de quatro anos depois do episódio aqui narrado. Este cavalo foi vendido pouco tempo depois, a um cavaleiro Português.

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(1) e (2) – “Corridas com obstáculos” – ou “Steeplechase”- e provas de “Salto de Obstáculos” são modalidades completamente diferentes e não devem ser confundidas. Enquanto que, na primeira, vários cavalos disputam, em simultâneo, uma corrida (prova de velocidade), ao longo e em torno de uma pista com diversos obstáculos fixos (tais como sebes e valas), vencendo o primeiro que chegar à meta – na segunda, apenas um cavalo de cada vez efectua um percurso, com muitas “voltas” e mudanças de direcção, ao longo do qual deve transpor uma grande variedade de obstáculos artificiais, dentro de um tempo-limite pré-estabelecido; o vencedor é, em princípio, aquele que conseguir realizar um “percurso limpo” (sem derrubar nenhum dos obstáculos) no mais curto espaço de tempo, dentro do já referido limite pré-estabelecido. Para verem exemplos destas diferentes modalidades, sugiro as seguintes ligações:

* “Steeplechase”: Site oficial do “Grand National” – talvez uma das mais famosas corridas com obstáculos do mundo – http://www.grand-national-world.co.uk/

* “Salto de obstáculos”: Espaço virtual da “Quinta da Lage” – página “Cavalos – uma história de amor” – http://quintadalageportugal.com/cavalos/

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(3) – Tradução de “Here’s looking at you, kid!” – uma das mais conhecidas falas do actor Humphrey Bogart no célebre filme “Casablanca”

One Comment leave one →
  1. Jorge Manuel Gonçalves permalink
    09/03/08 00:38

    Ressaltam os conhecimentos da criadora de cavalos, da amazona e da “tradutora” do vernáculo português!

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