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I – Uma “cão”- ção de Natal

“Para um cão, a felicidade é o que está do outro lado da porta.” – Charleton Ogburn Jr.

“Estou certo de que Deus me ama, e afirmo-o sem hesitar; afinal, não me deu Ele tantas coisas boas para mastigar?” – Do poema “A vida de um cachorro” – Autor desconhecido

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Era véspera de Natal, e, como todas as outras vésperas de Natal, aquela fora atarefadíssima.

Desde manhã cedo, a casa dos meus pais fervilhara de actividade. Os últimos presentes tinham sido embrulhados, a mesa para o almoço do dia seguinte, dia de Natal, fora posta, os costumados Bolos-Reis tinham sido distribuídos por todos os trabalhadores da quinta, montes e montes de votos de “Feliz Natal” tinham sido trocados, um milhão de recados de última hora tinham sido feitos, e uma imponente colecção de doces tradicionais de Natal que, ao longo de toda a manhã e parte da tarde, enchera a ampla e luminosa cozinha de aromas de causar água na boca, estava agora guardada, em segurança, na vizinha copa.

Em toda a volta daquela divisão aconchegada e em cores de sol, sobre os balcões de mármore e de ambos os lados da pia, grandes travessas de “mexidos” (também conhecidos como “formigos”), taças de “sonhos” a nadarem em calda de açúcar, pratos de louras “rabanadas” e de aletria de ovos polvilhada de canela, tortas de noz recheadas com mel e ovos-moles, e vários bolos de fruta gigantescos, combinavam os seus tons ricos e quentes numa festiva e convidativa “palette”… ah, sim, tanto para o palato como para os olhos! Mmmmmmm!

Ao pôr-do-sol, finalmente, tudo parecia estar pronto, e eram horas de irmos visitar a minha avó materna, com quem não passaríamos o Natal naquele ano, a fim de lhe levarmos os nossos presentes e de passar algum tempo com ela, após o que regressaríamos a casa, para meter mais presentes e alguns doces no carro – dirigindo-nos, então, para a casa da minha avó paterna, para a ceia de Natal. Sim, nessa época, ceávamos, em anos alternados, com cada uma das avós.

E assim, lá fomos, não sem antes nos certificarmos, porém, de duas coisas:

Primeiro, de que o nosso “trio canino”, que passara todo o dia a “babar-se”, em perfeita unanimidade, debaixo da mesa da cozinha, junto ao fogão, e em volta dos nossos pés, estava confortavelmente instalado no vestíbulo da cozinha, com as suas tigelas devidamente abastecidas de comida e água fresca, os seus cobertores, e os seus brinquedos favoritos;

Segundo, de que as portas entre o referido vestíbulo e a cozinha, e entre esta e a copa, estavam devidamente fechadas.

Era um “trio canino” multifacetado, o nosso, nesse tempo:

Havia o “Freddy” – o terceiro de uma série de “Freddies”, todos eles, belos “Setters Irlandeses” cor-de-fogo – elegante e gentil, com uma faceta muito brincalhona que, a todo o momento, o fazia aprontar cenas hilariantes (como por exemplo, atirar uma garrafa de plástico ao ar, apanhando-a, depois, pelo gargalo, e passeando-se, assim, com ela na boca, como se estivesse a beber);

Havia, também, a “Mitriki” – uma deslumbrante, fofa, e rechonchuda cadelinha, cruzada de “Lhasa Apso” e “Cocker Spaniel”, que parecia, tal a beleza da sua exuberante “cabeleira”, ter feito “nuances” num salão de cabeleireiro fino, e que era capaz de exibir, alternadamente, o melhor e o pior das características comportamentais de ambas as raças dos seus progenitores. De facto, e em menos de nada, de um monte de pêlo engraçado, ternurento, amoroso, com olhos doces, muitas abanadelas de cauda, e muitos “beijinhos molhados” para dar, ela podia transformar-se num “monstro” assanhado e respingão, mordedor de calcanhares, caçador de galinhas, de pombos, e de melros, enfim… numa verdadeira “fera”!

E, por último, havia o “Cisco” – um lindíssimo “Silky Terrier” (um “primo” Australiano do “Yorkshire Terrier”) cuja “família”, por sinal a do irmão mais novo do meu pai, fora viver para outro continente, deixando-o ao nosso cuidado. Este cãozinho, que ficaria connosco até morrer, com a idade avançada de 18 anos, era giríssimo, muito esperto e com um certo ar de filósofo, e a sua pelagem, longa e sedosa, parecia feita de fios de prata.

Com este “trio” sortido, a vida era uma alegria – mesmo tendo em consideração os “maus-humores” da “Mitriki”, que, de resto, eram de curta duração – e nenhum deles causava quaisquer problemas… bom, se excluirmos aquela vez em que a já célebre “Mitriki” decidiu perseguir os patos que pertenciam à mulher do nosso feitor, deixando-os ilesos… mas com os respectivos traseiros totalmente depenados! O melhor de tudo, porém, era o facto de serem todos muito amigos, sem que uma luta, ou sequer o mais ténue sinal de ciúmes, jamais tivesse surgido entre eles – e, realmente, costumavam portar-se muito bem quando, como naquela véspera de Natal, ficavam sozinhos em casa.

Tudo isto tomado em conta, lá fizemos, despreocupados, a nossa visita à avó, após o que regressamos, igualmente despreocupados, a casa – onde entramos pela porta da frente, de modo a não perturbar o “trio” que, acreditávamos, dormia a sono solto, àquela hora, no vestíbulo da cozinha. Poderíamos, assim, silenciosamente, aceder à copa pela sala-de-jantar, pegar nos doces que íamos levar para casa da outra avó, e, silenciosamente, voltar a sair.

Então, enquanto os outros colocavam no carro as restantes prendas, eu segui, confiante, a minha mãe até à copa, para a ajudar a acarretar os doces… e, “oh, inclemência, oh, martírio!” (1) – não vão acreditar, tal como nós, na altura, dificilmente o conseguimos, no cenário que, perante os nossos olhos completamente esbugalhados, se apresentou:

A porta que dá da cozinha para a copa, estava tão aberta como as nossas bocas ficaram, e como, sem dúvida, devia estar a que dava da cozinha para o vestíbulo – ambas as quais, como acima referi, nós tínhamos deixado bem fechadas, antes de sair;

Do chão de mármore, normalmente imaculado, mas agora um “caos” pegajoso e amarelado, com laivos castanhos, e semeado de cacos de vidro e porcelana, o “Cisco”, de “barbas” totalmente empastadas de aletria, dirigia-nos o seu mais cativante, apologético, e largo “sorriso” – enquanto o “Freddy”, rodeado de pedaços de torta de noz e “rabanadas” meio comidas, e depois de nos lançar, de esguelha, um fugaz olhar comprometido, retomava a sua deleitosa tarefa de devorar a segunda metade de um dos monumentais bolos de fruta, que segurava, como um volante, entre as patas dianteiras;

Por seu lado, refastelada, como uma lânguida princesa Oriental, dentro da pia, a anafada “Mitriki”, com uma taça de “sonhos” vazia ao lado, lambia, vagarosamente (por entre arrotos enfartados, tal devia ter sido já a “barrigada”), o diminuto resto do que tinha sido uma enorme travessa de “mexidos”!

Do delicioso e farto sortido de doces de Natal, preparados com tanto cuidado, e destinados não só à ceia daquela noite, como ao almoço do dia seguinte, e ainda – ou assim contávamos nós – a proporcionar-nos mais uns dias de boas sobremesas, restavam, apenas, um bolo de frutas (com a cobertura de açúcar toda lambida) e algumas “rabanadas”, molemente penduradas por cima da beira de um prato, puxado para a borda de um dos balcões! Tudo o mais tinha sido entornado, revolvido, e devorado, à maneira de uma orgia, por aquele “trio” de canídeos que, e cito-me a mim própria, “costumavam portar-se muito bem quando ficavam sozinhos em casa”… fim de citação!

Ora bem, o que fazer, perante semelhante cataclismo? Já que matar o “trio”, no acto, não era uma opção, e, de resto, isso não traria os doces de volta, podíamos escolher entre duas reacções: uma, atirar o “trio” mais os restos do bacanal pela janela fora e ter um ataque de pânico; a outra, sentar-nos no chão, no meio do “trio” e dos restos do bacanal, e chorar.

Porém, nem eu nem a minha mãe optamos por qualquer das duas reacções acima apontadas… porque olhamos para o “trio”, para os restos do bacanal, e uma para a outra… e, pura e simplesmente, explodimos ambas no maior, mais histérico, mais roncante, mais sibilante, mais torcedor de corpo, mais doloroso para barriga, e mais convulsivo ataque de riso de que há memória na História contemporânea da hilaridade! Ah, meus santos protectores da intemperança, os cães estavam tão cómicos, e a destruição era, realmente, tão maciça, que nem valia a pena a gente começar, sequer, a afligir-se!

Quando as outras pessoas da família – certamente fartas de esperar por nós no carro – decidiram vir verificar o que diacho estaria a demorar-nos, o “trio infernal” estava pasmado para nós as duas, sem saber muito bem que conclusões tirar daquela nossa extravagante reacção: A “Mitriki”, arrotando ainda do alto (e do fundo) do seu “trono” na pia, o “Cisco” sorrindo ainda, de forma bajuladora, e o “Freddy” arfando, com a expressão mais parva e mais “inocente” do mundo estampada no focinho ainda todo lambuzado de açúcar! Quanto a nós, continuávamos a cambalear pela copa, às gargalhadas, de maxilares doridos, as lágrimas correndo-nos, já, pela cara abaixo.

E brevemente, após o choque inicial, toda a gente acabou por juntar-se a nós, rindo, também, que nem loucos, naquela caótica divisão – enquanto o “trio”, agora confiante de que não haveria retaliações por parte daquele grupo de pessoas prestes a desintegrar-se de riso à sua frente, dava, com satisfação e calma, às besuntadas caudas!

Até hoje, não sei como conseguiram eles abrir duas portas – com maçanetas redondas, ainda por cima – como se arranjou a gorda e baixota “Mitriki” para saltar tão alto, até alcançar a pia, e como foi possível que os três comessem, em, relativamente, tão pouco tempo, uma quantidade de doces tão astronómica, sem que isso lhes causasse, sequer, o mais leve sinal de indigestão. Tudo o que sei, é que, independentemente de quão bem comportados sejam os nossos cães, não devemos, nunca, jamais, em caso algum, confiar que podemos deixá-los… sozinhos, numa casa, com um sortido aromático de doces, mesmo que, entre eles e tal tentação, existam várias tigelas de boa comida, cobertores confortáveis, brinquedos favoritos, e duas portas alegadamente fechadas e com maçanetas redondas!

Sei, também, que nunca, nunca poderei esquecer aquela véspera de Natal, que veio confirmar, sem margem para dúvidas, que… “para um cão, a felicidade é o que está do outro lado da porta”, e também a razão dele, do cão, dizer… “estou certo de que Deus me ama, e afirmo-o sem hesitar; afinal, não me deu Ele tantas coisas boas para mastigar?”

*

(infelizmente, já nenhum dos três inesquecíveis protagonistas desta igualmente inesquecível história está connosco. O “Cisco”, como eu referi, deixou-nos, já muito velhinho, aos 18 anos – a mesma idade que tinha o “Freddy” quando também nos deixou, cerca de 10 anos mais tarde. Quanto à maravilhosa “Mitriki”, que nos deixou vários descendentes tão carismáticos como ela – alguns dos quais protagonizarão, também, algumas das histórias desta colecção – partiu, aos 15 anos, depois do “Cisco” e antes do “Freddy”, devido a uma insuficiência renal irreversível. Mas, para sempre, estes queridos amiguinhos ficarão “indissoluvelmente ligados” a nós, nos nossos corações!)

*

Notas & Citações:

Na composição fotográfica, no sentido dos ponteiros do relógio: “Mitriki”, “Cisco”, e “Freddy”.

(1) – Citação do filme Português “O Pai Tirano”, de António Lopes Ribeiro (1941)

3 comentários leave one →
  1. Jorge Manuel Gonçalves permalink
    09/03/08 00:02

    Descrições-retratos inimagináveis. Gostaria de ter partilhado dessas gargalhadas!

  2. Alexandra permalink*
    09/03/08 09:57

    É um prazer dar-te as boas-vindas a estas paragens, meu caro vizinho, e fico feliz que tenhas gostado desta primeira “aventura”. Perdoa-me o atrevimento… mas, por qualquer razão, suspeitei que irias identificar-te com o espírito destas histórias simples e naturais.
    Muito obrigada!
    Beijos também do lado de cá,
    Alexandra

  3. 09/03/08 22:54

    O teu chamamento dende o Caderno sobre desta nova fiestra foi un reclamo intenso para min. Gostarei de abrila e pasear os meus ollos por ela. De seguro disfrutarei como xa disfrutei hoxe nesta primeira incursión.

    Beijos dende o outro lado da raia.

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